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RECONSTITUIÇÃO
DA MEMÓRIA
A recuperação digital de imagens permite salvar das traças até a mais
danificada das fotografias. O processo, entretanto, exige conhecimento
técnico, habilidade e muita paciência
Por Alcides Mafra, publicado na revista Photos & Imagens
nº 40
Elas permanecem esquecidas a maior parte do tempo. Ficam escondidas no
fundo de alguma gaveta atulhada, em caixas de sapato ou encerradas em
álbuns despercebidos entre as tralhas da estante. Porém, basta um
encontro fortuito durante alguma faxina ocasional para que aquelas
fotografias guardadas há longo tempo despertem velhas emoções.
Carinhosamente resgatadas do esquecimento, recompõem, em instantes de
contemplação, um quadro vivo do passado.
São surpreendidas, em seu refúgio, amareladas, rotas, maltratadas por
anos de uso descuidado ou por acidentes de percurso. Já não se pode
identificar com precisão as cenas retratadas, os rostos ameaçam
desaparecer para sempre num emaranhado de rasgões, riscos e sujeira.
Como carregam registros únicos, sua deterioração implica a perda de
preciosos fragmentos da memória. Por sorte, há solução para estes casos.
A prática da restauração – e também da manipulação – de imagens é
contemporânea ao surgimento da fotografia. Antes que se popularizassem o
computador e os softwares de tratamento de imagem, nas últimas cinco
décadas, a recuperação de fotografias danificadas derivava de um
delicado processo artesanal em que o restaurador – geralmente um
fotógrafo com prática de laboratório – fazia cuidadosos reparos no
negativo ou na cópia em papel, um trabalho lento e minucioso que exigia
muita perícia.
O desenvolvimento dos softwares de edição de imagem, especialmente o
Photoshop, permitiu ao grande público, acesso a formas práticas de
manuseio da imagem. Com algum conhecimento do programa, um computador,
um scanner e uma impressora de boa resolução, o usuário pode se
aventurar a editar suas fotografias, recortando-as, inserindo ou
retirando elementos, inventando texturas ou recuperando falhas de
captação ou produzidas pela ação do tempo. Alguns se especializaram,
agregando as funcionalidades da tecnologia ao conhecimento anterior ou
simplesmente se inserindo num terreno completamente novo. Quem exerce o
ofício de manipulador digital de imagens destaca a rapidez e a
capacidade praticamente ilimitada que o computador tem de resolver os
mais complexos problemas. Todavia, não perde de vista os paralelos com a
técnica tradicional. “O processo de restauração é um trabalho que requer
muito talento e muita dedicação, porque na maioria das vezes você pega
imagens que não contêm informações corretas e tem que reconstruir a
imagem”, opina Alexandre Keese, de 29 anos, consultor gráfico e
conhecedor dos recursos do Photoshop.
Para o técnico, o processo ganha ares de arte ao exigir do profissional
um fino trabalho de reconstituição que pode ser executado em tempo
relativamente curto ou levar dias, dependendo do estado da imagem. Em
qualquer um dos casos, ensina Keese, é necessário dominar algumas
ferramentas e exercitar a paciência. Desenvolver macetes também conta.
Por exemplo, uma forma que ele encontrou para suprimir deficiências foi
criar “bancos” de olhos, de bocas e de narizes, os quais vai aplicando
até encontrar um que se adapte melhor ao problema.
Getulino Pacheco, de 39 anos, ilustrador e parceiro de Keese na
restauração de imagens, entende que não há segredos neste trabalho, mas
concorda que é necessário algum talento para desempenhar bem a função.
“Qualquer pessoa, conhecendo as ferramentas, pode fazer uma recuperação.
Dependendo da foto, é demorado. Tem foto que é rasgada, tem muita
sujeira, tem que arrumar o foco, mas um pouco de conhecimento técnico do
aplicativo e talento normal é o que bastam para deixar a foto ok”,
afirma.
Há que se considerar, entretanto, o tamanho do estrago. Alguns clientes
procuram o restaurador com fotografias em frangalhos. Caberá ao
profissional aplicar a dose de técnica, talento e paciência necessária
para superar obstáculos que são, invariavelmente diversos e,
aparentemente, intransponíveis. “Uma coisa que eu aprendi com o
Photoshop é que não existe o impossível. Existe o ‘ainda não testei’ ou
‘ainda não fiz esse processo’, porque muitas coisas que eu falava ‘não
dá’ hoje eu faço. O grau de complexidade varia, mas eu acho que deve dar
para fazer tudo, só que com uma dedicação muito maior”, avalia Keese.
Nesses casos, quando o cliente entrega ao restaurador uma imagem aos
pedaços, registro único e carregado de valor sentimental, o faz
acreditando que apenas um milagre pode salvar sua fotografia. Ao ver o
resultado desse laborioso trabalho, a sua foto recuperada, é como se
estivesse realmente vivenciando um milagre. Pacheco relata um caso
ilustrativo: certa ocasião, uma senhora lhe confiou a foto do seu
casamento, desfigurada, faltando boa parte do bolo, dos doces e demais
detalhes da cena. Diante do quadro desesperador, ele pôs mãos à obra:
“Eu copiei a bandeja de salgadinho, inverti, fiz a trama da toalha,
coloquei onde tinha a toalha. Nossa! Ela até mandou um negócio de doces
para mim”, diverte-se.
Mais do que compensação em dinheiro, os especialistas na recuperação de
fotografias encontram nesta perplexidade o maior motivo de satisfação. O
fato de lidarem com as lembranças e emoções das pessoas agrega ao seu
trabalho importância e reconhecimento. “Para você é normal, as coisas
que você está fazendo e tudo mais, mas para a pessoa que não conhece, é
impossível. Então, quando ela vê uma coisa que você restaurou, ela fica
maravilhada, como se fosse um milagre. É como se você voltasse no tempo
e tirasse a fotografia de novo. Isso que é legal”, descreve Pacheco.
“Quando você está fazendo uma foto dessas, você fica muito contente com
o resultado, porque você conseguiu resgatar algo muito precioso, que é
um sentimento, é uma sensação, é um momento”, destaca Keese. Ele, aliás,
também conta um caso que ressalta essa importância. Na intenção de
limpar uma fotografia empoeirada, a empregada de uma cliente retirou a
imagem da moldura e usou um produto de limpeza. “Automaticamente ela
tirou toda a informação da foto. Ficou uma coisa! Pegamos essa imagem,
restauramos, reconstruímos todo o terno, gravata, olhos, cabelos,
colocamos toda a intensidade. Na hora que a moça viu a foto, que era do
marido dela já falecido... foi indescritível a alegria dela! Era a foto
de quando eles casaram”.
OS CONSERVADORES DE MEMÓRIA
Nem só de pixels, bites e Photoshop vive o mundo da restauração
fotográfica
Por André Teixeira
Ainda há profissionais nesse ramo – principalmente no de fotos e
negativos antigos – trabalhando de maneira artesanal, utilizando
pincéis, fórmulas químicas e, principalmente, amor à fotografia e à sua
história. “Nosso trabalho é mais ligado à memória. Fotos antigas são
documentos que devem ser recuperados e preservados”, diz Márcia Mello,
que já trabalhou no Centro de Conservação e Preservação Fotográfica da
Fundação Nacional de Arte (Funarte) e no Museu de Arte Moderna (MAM) e
desde 97 tem um ateliê com a sócia Nazareth Coury.
Para Márcia – que se considera mais uma “conservadora” de fotos do que
propriamente uma restauradora –, há uma diferença básica entre seu
trabalho e o realizado digitalmente. “Nós trabalhamos na recuperação e
preservação do original, enquanto o processo digital cria um novo
produto. Nós preservamos a memória, o computador preserva ou recupera a
informação”, explica. O digital, para ela, deve ser visto como um
instrumento que complementa o trabalho de recuperação. “É uma ferramenta
que facilita a transmissão das informações, protegendo o original, que
deve ser sempre a prioridade”, analisa. Ela vê com preocupação a postura
de algumas instituições que investem apenas na digitalização de seu
acervo de imagens e documentos, esquecendo da necessidade de preservar
os originais. “Fotos e negativos antigos contam histórias”.
No ateliê, Márcia e Nazareth trabalham principalmente com acervos de
empresas e famílias. A maior parte é composta de fotos. “As pessoas
geralmente perdem os negativos, ou eles ficam, no caso dos mais antigos,
com o profissional que fez as fotos. Os que aparecem geralmente são de
algum artista que tem o acervo fotografado há muito tempo, quer publicar
as imagens num livro ou catálogo e os traz para uma limpeza”, explica
Márcia. Recebem também muitos negativos em vidro e até daguerreótipos.
O trabalho com os negativos flexíveis é basicamente de higienização,
principalmente a retirada de fungos. “A gelatina do filme é um nutriente
para os fungos que, em condições de altas temperaturas e umidade
elevada, reproduzem-se rapidamente”, diz. Terminado o trabalho de
limpeza, mostram ao cliente a melhor maneira de acondicionar o material.
“Se eles forem guardados de forma inadequada, os problemas voltam”,
adverte.
Com fotos, o trabalho pode ir um pouco mais longe. No papel, é possível
fazer retoques e intervenções maiores em busca da imagem original, mas
sem exageros. “Como disse, sou mais uma conservadora. Interrompo o
processo de deteriorização e mostro como evitar que ele se repita. A
partir daí, se quiser ir mais longe na reconstituição da imagem, o
cliente pode digitalizar o original e trabalhar numa nova ampliação para
colocá-la num porta-retrato, por exemplo, mas sempre mantendo o original
a salvo”, lembra.
Márcia diz que toda intervenção efetuada por elas numa foto é
reversível, ou seja, a foto sempre pode voltar ao aspecto anterior ao
trabalho de restauração. A tinta é solúvel em água, a cola também, e por
aí vai. “Tudo que fazemos pode ser desfeito. O importante é preservar o
original e toda a história que ele conta”, finaliza.

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